o desespero era muito, lutávamos por escapar à fúria da água que em fortes golpadas tomava conta do edifício, agarrávamo-nos uns aos outros, agarrávamo-nos às paredes, aos móveis, a tudo que nos pudesse resgatar da fúria das águas que nos queriam engolir...
as águas recuaram, escapamos ilesos, pergunto a uma colega porque ficámos encurralados no rés-do-chão do edifício se ele tinha mais andares, ela não me sabia responder, e tu onde estarias tu, interrogamo-nos...
olhámos para o lado e lá estava ele, o piano de cauda, ileso, e tu onde estarias? ouvimos sons no seu interior, abrimos a cauda, e lá estavas tu, protegido dentro do teu instrumento, saltaste do seu interior e abraçaste-me como só se abraça alguém que se julga perdido...
dos teus braços não mais me soltaste, eu era uma bailarina que voava pelo palco guiada pela mestria dos teus passos, eu rodopiava, eu pendia sobre o teu corpo e juntos descrevíamos uma coreografia digna de bailados profissionais, o lago dos cisnes, eu um cisne nos teus braços, a plateia de sobreviventes lá ao fundo aplaudia-nos...
fui tão feliz naqueles momentos que durou o nosso bailado, agora ele tinha terminado, vamos embora, dirijo-me para a porta, mostram-me a saída, uma porta à qual reduziram a altura, só eu conseguiria atravessá-la, para ti é demasiado pequena, procuro-te com o olhar, já não estás, a multidão levou-te de mim, querem separar-nos, decido passar a pequena porta, pequena demais até para mim, tenho de rastejar para a atravessar, o meu pensamento deseja que vás no meu encalço, que arranjes um modo de te libertar e de novo estares nos meus braços...
acordo... um sorriso desenhado no rosto... os teus, rosto e sorriso, esses não recordo...