Se tivessem acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teriam ouvido as verdades que teimo em dizer a brincar, falei muitas vezes como um palhaço mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria. Charles Chaplin

Tornámo-nos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. Antoine de Saint-Exupéry

A cabeça que se não volta para os horizontes sumidos não contém nem pensamento nem amor. Victor Hugo

Não importa o que fizeram connosco, importa o que fazemos com aquilo que nos fizeram. JP Sartre

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domingo, 23 de agosto de 2015

i've been away: getting old, hopefully not bitter (continuo sem certezas)

não tenho escrito. falta de inspiração. não o posso considerar mau de todo, a minha escrita é (particularmente) movida pelo drama. assim sendo, a verdade é que não ter escrito está intimamente ligado com o encontro de alguma serenidade, aceitação, aprendizagem... um dia de cada vez, tirando partido das minhas possibilidades, desenfatizando, sem esquecer, as minhas diferenças e limitações. sou como sou, há coisas impossíveis de mudar, impossíveis de aceitar pacificamente, mas com as quais tenho de viver. se tenho de viver com elas, é necessário encontrar forma de convivência pacifica, a maioria dos dias pelo menos! de vez em quando há direito a um dia ou outro de mal comigo, com a vida e com o mundo, mas só de vez em quando. o resto dos dias é esforçar-me por olhar menos para mim e mais para tudo o que me rodeia.
todos os que passam na nossa vida são oportunidades de aprendizagem, neste processo sempre valorizei mais os que me magoaram. talvez por julgar terem sido eles a ensinar-me a reparar  nas minhas qualidades, aquelas que eu não via porque não sabia olhar o que realmente importa. acho que alarguei horizontes, distribui mais uniformemente o foco entre o mau e o bom, e começo a perceber que quem nos quer bem também nos ajuda a crescer, com a vantagem de nos proporcionar bons momentos. parece-me que ocupar, com esses momentos, mais do tempo que deixo passar a pensar é algo que me tem feito escrever menos!
por muitas voltas que a vida dê, espero não esquecer que um dia pessoas minhas me disseram: - envelhecer não serve só para ficar mais velho. e - eu sempre quis que, conforme fosse envelhecendo, nunca ficasse "amarga". continuar o caminho sem esquecer. sem memória não há aprendizagem. 
há contudo aprendizagens impossíveis, e entre elas estão a minha incapacidade de encontrar certezas e de escrever sobre qulaquer assunto na generalidade, e sobre sentimentos em particular. :P

terça-feira, 28 de abril de 2015

do filme que eu vi - a boa mentira


Entre 1983 e 2005, durante os terríveis anos da Guerra Civil que assolou o Sudão, estima-se que mais de dois milhões de pessoas tenham perdido a vida. Em busca de abrigo, um sem-número de famílias deixou as suas casas e seguiu em direcção a campos de refugiados. Devido à situação caótica em que viviam, perto de 27 mil crianças foram separadas dos pais, fazendo o trajecto sozinhas. Eram estes os "lost boys/girls", crianças de todas as idades que, fugindo aos perigos e, muitas vezes, acompanhadas pelos irmãos, percorriam milhares de quilómetros para alcançar os campos. Alguns anos mais tarde, um esforço humanitário levou para os EUA algumas destas crianças.
1993. Mamere e Theo são filhos do chefe de uma pequena aldeia no Sul do Sudão. Quando um ataque das milícias destrói toda a aldeia e lhes mata os pais, Theo é forçado a liderar um grupo de jovens sobreviventes e levá-los para um lugar seguro. Nesse árduo percurso, vão encontrando outras crianças em fuga. Entre elas está Jeremiah, de 13 anos, um rapaz inteligente e destemido que os ajuda a chegar com vida ao campo de refugiados de Kakuma, no Quénia. Anos mais tarde, Mamere, Theo e Jeremiah têm a oportunidade de deixar o campo e de se estabelecerem na América. Ao chegarem a Kansas City, no Missouri, são recebidos por Carrie Davis, que foi incumbida de os ajudar a retomar as suas vidas. Para ela, esta será uma oportunidade de perceber como a generosidade e o despojamento podem fazer realmente a diferença na vida de alguém.

quando me falaram do filme, e após ler a sinopse, recordo-me de ter comentado algo como "não sei se vou gostar, parece mais um filme à boa maneira americana, happy ending, a vida real não é assim!

em a boa mentira não há happy ending, não se vende o sonho americano, chega-se até, na minha opinião, a desconstrui-lo.
retratando uma das mais duras realidades de vida a que seres humanos podem estar expostos, a boa mentira mostra-nos como sob estas condições se forjam valores de enorme nobreza e se criam laços de infindável consistência. somos, assim, levados a reflectir sobre o quanto desvalorizamos o tanto que temos, e o quão fraca é a nossa capacidade de resistência perante os tão suaves contratempos que a vida nos coloca.

chamam-nos os meninos perdidos do sudão, mas nós não nos perdemos, nós encontramo-nos!
Jeremiah

retive esta fala, de um dos personagens menino perdido do sudão - interpretado por um verdadeiro refugiado sudanês-, julgo que resume a essência do filme. comparando a nossa realidade de vida com a dos refugiados do campo de concentração de kikuma, ou a de tantos outros sobreviventes de conflitos que assolam o seu lugar no mundo, percebemos o quanto faz sentido. apesar de termos o lugar onde pertencemos, a maioria parece andar perdida do que realmente importa. os valores morais, só eles podem traçar o caminho  para uma vida com sentido.
 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

do livro que eu li - jesusalém


é o meu segundo livro do autor e o segundo encanto. mia couto tem a capacidade de pôr em prosa poética questões muito pertinentes da existência humana. escolhi duas citações que retratam as duas realidades que mais me marcaram nesta leitura.

"Para Silvestre o passado era uma doença e as lembranças um castigo. Ele queria morar no esquecimento. Ele queria viver longe da culpa."
pág. 256
 
"Ela traía-se a si mesma com alguém que não amava.
- Por que aceitamos tanto?
- Quem?
- Nós mulheres. Por que aceitamos tanto, tudo?
- Porque temos medo.
O nosso maior medo é a solidão. Uma mulher não pode existir sozinha, sob o risco de deixar de ser mulher. Ou se converte ... numa ou noutra coisa. ... Tudo menos mulher. ... neste mundo só somos alguém se formos esposa. É o que agora sou, mesmo sendo viúva. Sou a esposa de um morto."
pág. 257
 
mia couto in jesusalém

 
a primeira revela a essência do livro. jesusalém gira à volta de uma personagem que se quis fazer renascer longe de tudo, para assim se tentar libertar de todos os seus fantasmas. mas os fantasmas vivem em nós! ao tentar perder-se do mundo que o atormentava, perdeu-se de si, encontrou a loucura. esta é apenas uma das formas de fugir do que nos atormenta, talvez a menos consciente. há tantas outras que o ser humano foi obrigado a inventar (sim, porque ninguém escolhe as características com que veio ao mundo), a crença em entidades superiores, o uso de substâncias aditivas (com ou sem prescrição médica), pôr termo à vida, infernizar a vida de outros... infelizmente, a verdade é que, a tentar fugir de nós mesmos enfrentamos o risco de nos perdemos de viver!
 
a segunda fala de uma realidade que sempre me incomodou. mulheres que não sabem existir sem homens. e não estou a falar de sexo. falo de senhoras para quem ser mulher não tem sentido sem a presença de um homem. bússolas para quem o norte é sempre o género oposto. mulheres para quem a opinião de um homem é sempre mais válida que a sua, ou de qualquer outra mulher. mulheres que se definem, e se vivem em função deles. recentemente durante uma formação pedi às formandas que se apresentassem, o objectivo do curso é dar-lhe ferramentas extra para enfrentar o mundo de trabalho, surpreendi-me portanto, quando além do nome, recebi apenas informações sobre o estado civil. interroguei-me que importância tinha tal informação e porque não indicaram por ex. o nível de escolaridade ou as profissões que já tinham exercido! realizei que, ainda há muitas mulheres a não saber ser sem a presença de um homem... infelizmente, deixei de me espantar com elementos do género feminino que se anulam para agradar a quem não lhes dá nada em troca, nem tão pouco respeito. deixei de me espantar com vítimas caladas de violência física e psicológica dos companheiros. percebi que não é uma questão de educação, extracto social ou formação académica, é algo tão inerente à natureza das mulheres - de cada vez menos, acredito - quanto o machismo o é à natureza dos homens. a existência de um não será certamente alheia à de outro.

domingo, 12 de abril de 2015

confiança: crença na retidão moral, no carácter e na lealdade de uma outra pessoa

ninguém é totalmente bom, nem totalmente mau. por mais que gostemos de alguém, é da natureza humana encontrar defeitos no outro. em alguns esta característica - o dom de apontar o dedo porque eu sou o dono da razão - é dominante, noutros é inexistente, noutros um meio-termo. julgo encaixar-me nos últimos, esforço-me por não valorizar o que acho menos bom, especialmente quando há algo de muito bom. o muito bom para mim chama-se lealdade.
 
perceber que aquele alguém em quem confiei plenamente, que esteve presente em muitos momentos difíceis da minha vida (dizem que é nessas alturas que se conhecem os amigos. dizem, eu costumava acreditar, começo a duvidar!) me foi desleal é deprimente. levanta o véu da descrença. como é que alguém, que nos é tão próximo (haverá proximidade maior que a confiança?), pode agir de forma tão leviana connosco?
 
para mim há uma ética das relações, algo que define a forma como me relaciono com os outros. nunca falei sobre isso com ninguém, sempre achei que era o lógico, e sempre julguei que as pessoas em quem aprendi a confiar (sim, porque a confiança vai-se construindo) seguiam os mesmos princípios. afinal estava errada.
 
não comento apesctos menos positivos da vida de ninguém a não ser com pessoas em quem confio, e quando digo confiar, quero dizer ter a certeza de que o privado partilhado assim se manterá. 
tenho uma espécie de hierarquia de confiança, definida pelo nível de similaridade entre a minha personalidade e a do outro. há aqueles com quem falo abertamente sobre tudo, porque sei que mesmo não concordando me vão ouvir tentando ver o meu lado. há aqueles com que só falo de determinados assuntos, porque sei que têm uma visão diferente da minha e  a vida não os ensinou a ver de outros ângulos. por aceitar e respeitar a sua maneira de ser aprendi existirem caminhos por onde não vale a pena ir.
ao apontar aspectos menos positivos não o faço (julgo) de uma forma negativa. faço-o argumentando sobre o porquê de achar determinado comportamento errado, tendo em conta a minha perspectiva da realidade. cada um vê com a mente que tem.

por me reger por estes princípios, pessoas que utilizam como tema de conversa, com fulanos, sicranos e beltranos,  situações de vidas alheias - melhor dizendo, interpretações levianas destas -,  das quais só tiveram conhecimento por lhes ter sido dada a partilhar da intimidade que só aos amigos se dá. pessoas assim causam-me uma enorme tristeza. só podem ser pessoas ocas de razão e vazias de sentimentos. 
 
ter confiado e defendido (de supostas calúnias) uma dessas pessoas, primeiro deixa-me profundamente desiludida. segundo leva a que me adjective de inocente, crente, burra, totózinha. terceiro, e à terceira é que é, faz-me perceber que a errada não sou eu por confiar. errado é fingir que se é amigo de alguém e trair a sua confiança. errado é ter sempre palavras amigas que são apenas frases feitas. errado é apontar o dedo ao outro para mascarar a nossa própria falta de carácter. errado é não saber aprender nada com o tempo que nos é dado para viver.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

(não) ser Pessoa

as palavras que nunca direi são as que mais ecoam em mim... saber aceitar o que somos e o que nunca seremos é a arte de saber viver... quem não nasce com alma de artista arrisca perder-se na realidade da loucura...



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

super canquinha uma heroína muito fraquinha

hoje dormi bem, uma das primeiras noites em que tal aconteceu desde a época pré Natal (já por aqui contei que é das alturas mais dolorosas do ano para mim), e acordei bem-disposta;
 
hoje, à minha boa maneira de distraída crónica, deixei ficar o almoço em casa (haverá alguma relação de proporcionalidade inversa entre o aumento do bem-estar e a diminuição dos níveis de atenção?);
 
hoje almocei uma sande de atum sem ovo, fiquei desconsolada. nesta condição resolvi fazer algo que não fazia há meses;
 
hoje bebi um café, ainda ponderei um pingado, mas não resisti e tomei café, comprido mas café (que saudades do cheiro, do sabor, soube-me tão, mas tão maravilhosamente bem);
 
hoje após beber o café avisei quem estava comigo, tinha bebido café, era possível que até paredes subisse (vítima da ansiedade, como também já aqui contei que sou, o café altera o meu sistema nervoso);
 
hoje nem sequer tentei subir paredes, hoje, não sei se por efeito do café, lancei mãos a uma tarefa bem mais difícil. hoje quis que duas pessoas de quem sou amiga e que não se entendem o fizessem;
 
hoje (re)lembrei, algo que a vida já me ensinou, mas às vezes, muitas, eu esqueço. as pessoas não têm de ser todas  amigas (por muito que nós gostássemos que assim fosse) e não há nada de errado nisso. gostar ou não é uma questão de afinidade entre personalidades, já aqui o tinha escrito, e nós gostarmos de duas pessoas não tem de significar que elas também tenham de se gostar entre si;
 
hoje percebi novamente que não sou tão descrente no ser humano quanto afirmo. a minha candidez dificilmente me vai abandonar, por muito que a vida pareça esforçar-se para tal, ela é a minha maior virtude, ela é o meu maior defeito... tenho dias, sou só um entre biliões de seres humanos.
 
super canquinha é o apelido com que, num dia que não hoje, a minha sobrinha, a minha doce T, me brindou. é tão mais fácil ser heroína no mundo das crianças.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

pela estrada da vida

na condução, como na vida, não gosto de empatar ninguém, facilito sempre manobras correctas que tenham em vista ultrapassar-me.

tento fazer tudo para que sigam em frente sem mim, não posso é mudar a minha forma de conduzir! nem a dos outros!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

"jornalismo" cor-de-rosa-tétrico

o conceito de revista cor-de-rosa causa-me uma certa estranheza, que interesse há em espiolhar as vidas alheias? quero lá saber se esta tem celulite, aquela trocou de namorado, ou a outra aumentou o tamanho do peito! a vida de cada um diz respeito a ele mesmo e a quem com ele a partilha.

nem todas as vidas são invadidas, há gente que gosta de se expor, ser famoso nem que seja por razões tão desinteressantes como as atrás referidas. verdade, sei-o apesar de também não perceber!

desta relação de parasitismo com uns e simbiose com outros florescem uma série de revistas no nosso cantinho.

apercebi-me recentemente de uma tendência seguida por este género de publicações, algo que me revolta as entranhas, a cobertura de velórios e enterros! com que direito se invade a privacidade de alguém em momento de tamanha dor? quem são os monstrinhos que se querem fazer aparecer à custa da perda de um ente querido/vida humana?
 
sejam quais forem as motivações de tais artigos parecem-me inaceitáveis, imorais, o espelho da degradação da nossa sociedade.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

no final... quem escreve o guião somos nós!

dificilmente o fim de uma relação amorosa acaba em amizade, dizem, eu não percebo, acredito, vejo, mas continuo a não perceber.
não há amor sem amizade. não há amor sem momentos felizes, muitos felizes. não há amor que não nos traga recordações que nos deixem um sorriso estampado no rosto. se o amor acabou, se transformou, porque não simplesmente assumi-lo? porque não dar a hipótese a cada um de seguir o seu caminho carregando na bagagem uma montanha de bons momentos e no coração alguém especial? 

há sempre uma parte que sai mais magoada, sofre mais, sim, mas degradar a relação contribuí em algo para amenizar esse sentimento? 

eu acredito na amizade após o fim de uma relação. basta as pessoas serem sinceras o suficiente para assumirem/aceitarem a mudança do sentimento que os unia. basta respeitar os sentimentos do outro e tentar compreende-los. basta ser altruísta o suficiente para dar ao outro a liberdade de já não nos amar, mesmo que isso implique a enorme desilusão de sabermos não ter correspondido às suas expectativas, mesmo que isso implique saber que encontrou alguém que o preenche mais que nós. basta esforçarmo-nos por perceber que cada um ama à sua maneira, cada um encontra encanto em características diferentes, que o deixar de amar não implica nunca ter amado verdadeiramente, o deixar de amar não anula continuar a querer bem, admirar, nutrir um imenso carinho, uma imensa e verdadeira amizade. 

não percebem porque penso assim, penso e sinto. talvez seja porque prefiro lembrar as pessoas por tudo de bom que partilhamos. talvez seja porque me esforço por aceitar as escolhas dos que amo. talvez seja porque lhes quero bem em tal medida que os quero livres de escolher como e com quem se querem fazer felizes. talvez seja porque ao contrário daqueles que se amam acima de tudo, não me amo o suficiente, e se para os primeiros é inaceitável deixarem de ser especiais, para mim é apenas a confirmação de algo que sempre soube.
não sou ingénua ao ponto de achar que todas as relações podem acabar em bem. não podem é certo, pelo simples facto de que o mundo está cheio de pessoas malformadas, para as quais amar é sinónimo de usar, manipular, possuir, desconsiderar, com estes é impossível manter uma relação cordial. mas assim sendo, haverá alguma vantagem em dar-lhes, além da educação nos contactos necessários, o desprezo?
não percebem e ficam chocados quando digo que as relações amorosas podem acabar em amizade. o que eu não percebo são os pais que utilizam os filhos como forma de segurar ou atingir um companheiro que já não o ama. o que não entendo são os casais que insistem em manter relações de fachada em que nenhum dos dois é feliz. o que eu não percebo são as pessoas que criticam os outros por se terem separado e serem amigos, serem as mesmas que dizem se não fosse a casa, o carro, o churrasco, o painel solar e o trem-de-cozinha há muito estariam separados…
não percebo, a estranha devo ser eu...

segunda-feira, 12 de maio de 2014

conchita wurst, ou, da iludência do que os olhos vêem!

descrições para retratos robô é coisa para me deixar desconfortável. jamais conseguiria fazê-lo, não estando a olhar para a pessoa sei lá eu como são as sobrancelhas, o nariz, a boca, o formato do rosto! com sorte fixo a cor do cabelo, e algum sinal, se for assim daqueles tipo verruga com pelos em riste. de resto não me venham cá perguntar se o cabelo era pintado, as sobrancelhas feitas, o nariz de batata, a boca rasgada, as orelhas de abanico, isso para mim é tudo paisagem indefinida. ver com os olhos não é comigo!
 
o aspecto para mim tem a ver com o que a pessoa é, e não com a sua aparência, podem não acreditar, mas é como eu sinto. a visão serve-me apenas para reconhecer, é um acto reflexo. a partir do momento que alguém me cativa, eu deixo de ver essa pessoa com os olhos, quase literalmente! podemos partilhar minutos, horas, dias, anos ... que eu não saberia descrever a pessoa fisicamente. quem não me cativa raramente me leva algum olhar.
 
nós não somos a nossa figura física, somos as nossas atitudes. tenho pena que se supervalorize algo tão insignificante e efémero, em função de algo que permanece quando (já) não estamos.
 
o que é que isto tem a ver com a personagem conchita wurst? tudo. eu não conheço a pessoa, apenas vi a personagem, portanto posso apenas pronunciar-me em relação ao que vi. voz e interpretação. excelentes. um homem vestido de mulher, a usar barba. um personagem. e se não for um personagem? o que é que eu tenho a ver com isso? nada. em que é que isso prejudica alguém? em nada.
 
quem me consegue incomodar e muito são aquelas pessoas que, tendo assumido um compromisso com alguém, não se coíbem de o desrespeitar das mais variadas formas, mas isso, isso é considerado normal!
 
eu bem digo que a visão é o sentido que mais nos cega.

terça-feira, 1 de abril de 2014

para quê celebrar a mentira?

as pessoas já mentem tanto, diariamente, várias vezes ao dia, porquê um dia das mentiras?
 
porque não um dia das verdades, que tivesse como objectivo revelarmos algo que por uma qualquer razão não tivemos a oportunidade ou coragem de partilhar?
porque não um dia das verdades em que estivessemos de coração mais aberto para aceitar, dialogar, perdoar e ultrapassar verdades menos boas?

abaixo o dia das mentiras!

segunda-feira, 31 de março de 2014

no meu armário não há esqueletos, porém, no meu coração jaz uma quantidade de emoções positivas bem superior ao que eu desejava

uma amiga comentava comigo um livro que está a ler, daqueles que estão na moda, e ensinam as pessoas a ser felizes, disse-lhe:
- cada um é feliz à sua maneira, não há receitas. sabes bem que sou uma descrente, não vale a pena perder tempo a tentar evangelizar-me.
 
minutos depois de falar com outra pessoa, dei por mim a pensar no que antes tinha dito. a minha descrença é de teorias (sejam elas de que tipo forem - teorias generalizam, eu não gosto de generalizações), não é extensiva às pessoas, nas pessoas eu acredito, esforço-me por ver o melhor delas. custa-me matar dentro de mim pessoas que eu achei serem seres humanos decentes, com falhas, como todos, mas com fundo bom, de boa índole. custa-me ver que há pessoas que têm prazer em degradar as relações, que estudam o outro, apreendem os seus pontos fracos, e aproveitam-nos para ferir, e fazem-no a quem só lhes quis estender a mão. custa-me perceber que há pessoas que não sabem querer bem, que não sabem aceitar que as criticas são formas de alerta e não de ofensa, custa-me perceber que há pessoas que não sabem o valor, nem conhecem a beleza de uma amizade verdadeira...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

pais, muito mais que um género ou substantivo

ser pai é muito mais que gerar, é amar, ensinar, educar, é esforçar-se por fazer feliz. capacidade parental nada tem a ver com capacidade de gerar, com o género ou número de indivíduos que a exercem, ou com o nome que se lhes atribui, tem a ver com a qualidade das pessoas como seres humanos, com as emoções e valores que têm para partilhar.
 
tenho lido muitas opiniões favoráveis à parentalidade por casais homossexuais. e confesso, o que mais me tem marcado são os comentários preconceituosos que inevitavelmente aparecem. opiniões cheias de fúria para com os homossexuais, emitidas por pessoas que julgam estar a defender a moral e os bons costumes, que pensam ser as donas da verdade e o garante da sã existência humana. francamente, não as percebo. como é possível gastar tanta energia a lutar contra algo que não lhes diz respeito, a vida afectiva dos outros, e simplesmente ignorar aquilo em que todos deveríamos estar focados? as crianças. como podem simplesmente esquecer estes pequenos seres humanos? tão frágeis, votados ao abandono, a quem está a ser negado o direito a amor, carinho, família, lar, infância. francamente, não percebo.
 
a única questão que me faz sentido, quando se fala em parentalidade por casais homosexuais, é esta: merecem as crianças ter a oportunidade de serem parte de uma família, de serem amadas como crianças que são? SIM.

domingo, 15 de dezembro de 2013

palavras

"coitado de quem as ouve, quem as diz fica aliviado", esta é uma frase que se usa muito por aqui, embora se refira a mentiras, pode generalizar-se para as verdades, porque verdades cada um "inventa" as que quer, que lhe convém, que lhe parecem... no final e afinal "todas as verdades são relativas"!
Pena que as pessoas se esqueçam de relativizar antes de falar, pena que pensem cada vez menos no peso do que dizem, atiram as palavras boca fora e quem as ouve que se desunhe, se lhe caírem bem muito bem, se lhe caírem mal é igual. Podemos sempre responder à altura é certo, mas isso implicaria descer ao nível do nosso interlocutor, e para infelicidade minha na maioria das vezes não o faço, porque na maioria das vezes as palavras que me magoam vêm de pessoas por quem eu tenho estima... se assim não fosse não teriam qualquer efeito em mim.
Depois dou por mim a questionar o porquê das pessoas serem assim, mesmo gostando de nós são capazes de proferir palavras sem pensar, sem pensar que nos podem magoar, sem pensar que cada um sabe de si, sem pensar que para dar opiniões devemos primeiro tentar por-nos na pele do outro, sem pensar que se a vida lhes deu óculos cor-de-rosa pode tê-los dado negros ao outro, há tantas cores no mundo...

terça-feira, 22 de outubro de 2013

juntos somos mais fortes


não temos de ser sempre fortes, os mais fortes, os que nunca cedem, os que nunca pedem, os que sabem sempre o caminho certo, somos só humanos, aqui não há super-heróis. 

comos seres gregários precisamos fazer parte do grupo, sentir-nos integrados. se é da nossa natureza viver entre iguais, porque escolhem alguns viver o isolamento em detrimento da comunhão?! julgar-se-ão eles seres tão superiores ou tão inferiores que não têm lugar? as diferenças são inúmeras, só da partilha pode nascer conhecimento, compreensão, aceitação.

os mais sós dos sós são os que escolhem não se integrar, os que não sabem pedir ajuda, os que têm medo de confiar, os que não pedem para não ter de dar... difícil não é ajudar quem precisa, é ajudar quem tem medo de ser ajudado.
 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Torresmo no coração - reflexão pseudo-cómica sobre os amores cometa

ontem ao chegar a casa, enquanto estacionava o carro vi um cãozinho lindo, pequeno, pêlo curto camel, orelhinha arrebitada, e olhar perdido, não resisti. chamei-o ele não vinha, fui-me aproximando, consegui pôr-lhe a mão, fazer-lhe uma festinha, agarrá-lo e levá-lo para casa. po**a o bicho era pesado tive de o poisar a meio do caminho!
 
o Pi - cão da casa há mais de uma década - após se enfurecer ferozmente, eriçar o pêlo, e soltar algumas rosnadelas, gostou logo dele, cheiradas as partes mais identificativas estava feita a declaração de amizade. escolhi-lhe o nome, seria Torresmo, um nome do Norte carago!

quando me preparava para o deixar à vontade, na sua nova casa, deram-se dois acontecimentos que precipitaram o inicio do fim do nosso amor tão lindo, que se previa ir fazer ribombar os nossos corações!
 
acontecimento # 1
pai diz que o cão não é vadio. essa era uma dúvida que me inquietava, ele estava gordinho e bem tratado, e eu não queria separá-lo da família. resolvi que o deixaria passar a noite em nossa casa e de manhã abriria o portão, se ele quisesse e soubesse poderia voltar a casa, se fosse amor ficaria.
 
acontecimento # 2
o bichinho era muito macho, e resolveu iniciar a marcação de território, e vai de cometer o grave erro de alçar a pata às plantas da minha irmã. ante a visão do plantio moribundo após a exposição a doses massivas de urina a irmã intima-me, "se queres o cão tens de o prender". a imagem tenebrosa do bicho agarrado a um cadeado aterrorizou-me, abri o portão e deixo-o partir, para a vida dele e para longe da minha, amar é libertar.
 
não posso deixar de pensar que a minha relação com o Torresmo foi tão rápida como algumas que tive com seres humanos. a diferença é que ao Torresmo fui eu quem lhe quis pegar ao colo, já os seres humanos foram eles que se quiseram pôr no meu colo. aparece-me cada torresmo!
 
Já dizia Chaplin, "...falei muitas vezes como um palhaço..."

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

em águas calmas todos somos bons marinheiros


 
em águas revoltas distingue-se o trigo do joio.
há os que sabem aprender o que o mar tem para ensinar,
e os que, dominados pela covardia, se recusam a enfrentá-lo,

é nos momentos de tormenta que se revela o verdadeiro carácter.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ela podia ser eu

conversa 2031

Ela - O meu marido gosta demasiado de mim.
Eu - Demasiado?!
Ela - Sim. Precisava que ele gostasse menos de mim, que era para eu conseguir gostar mais um bocadinho dele...
Eu - Confundes-me totalmente.
Ela - Isso é porque não percebes nada de desafio.
Eu - Que desafio?
Ela - Desafio, pá. Se um gajo não nos desafia em nada, perde o interesse.


Publicada por Bagaço Amarelo

ao ler esta conversa, no não compreendo as mulheres, senti-me espelhada nas palavras dela - tirando a parte do marido, como já por aqui disse, não acredito na contratualização de sentimentos. a expressão "gosta demasiado de mim", não pode ser entendida à letra, ninguém gosta demasiado, cada um gosta à sua maneira, o outro é que pode, ou não gostar de ser gostado daquela forma. empenha-se em mostrar que gosta, mostra-o constante e insistentemente, é neste sentido que compreendo a Ela. preciso, quero e gosto de me sentir amada, mas não quero de forma alguma que o outro se anule em função de mim, que abandone os seus gostos, crenças, ideais, sonhos, e vontades em função dos meus. podemos amar profundamente, mas não somos siameses, cada um tem as suas características genéticas e experiências de vida, somos pessoas diferentes. embora para amar precisemos de empatias e pontos de contacto, é muitas vezes nas diferenças que encontramos atracção, por vezes em características que nós admiramos, e não temos. uma boa parte da química nas relações amorosas, para mim, vem do fascínio que as diferenças do outro exercem em nós. quando quem ama se dedica demasiado ao parceiro, asfixia-o, não lhe dá liberdade de lhe sentir a falta, e como Ela diz, não o deixa gostar mais, porque o cansa, o satura.

acredito que as relações são feitas de presenças, mas não sobrevivem sem ausências, são feitas de dedicação, mas precisam de um pouco de indiferença, caso contrário caem na mesmice, na rotina, no enjoo.
descobri que sinto assim logo no meu primeiro namoro. o R era um rapaz muito popular, por quem muitas miúdas babavam, e a quem muitas passavam a vida a cercar. por força da atracção que exercia na minha melhor amiga acabou por entrar na minha convivência. a bem da verdade, não lhe achava grande piada, mesmo que achasse nunca o demonstraria por dá cá aquela palha, não é essa a minha maneira de ser. acho que foi por isso que ele reparou em mim. eu era diferente, não me oferecia. recordo o dia em que me dirigiu a primeira frase provocatória, a princípio senti-me ferida, mas não consegui de deixar de pensar nisso. surtiu o efeito que ele pretendia, de forma subtil e inteligente, sem o dizer disse-me "é em ti que eu reparo". seguiram-se muitos olhares e sorriso cúmplices, daqueles que tenho a certeza as bajuladoras nunca receberam. era de alguém assim que eu queria gostar, alguém que mostrasse gostar de mim não com os gestos mesmeiros, as cartas, as flores, a adulação, mas com subtilezas, atitudes e palavras que nos inflamam, mas nos deixam sempre uma réstia de dúvida. o R foi assim durante o pré-namoro, no dia em que oficializamos o namoro transformou-se radicalmente, parecia o meu sombra, fazia e existia em função de mim, um tédio. as minhas amigas adoravam-no, quantas vezes me diziam "ele gosta tanto de ti, e tu trata-lo mal". eu não o tratava mal, apenas mantive o meu comportamento, era o nosso código, a nossa linguagem, a nossa química. não consegui aguentar muito tempo, percebi não suportar amores pegajosos, preciso de pica, de desafio, não sei gostar, nem ser gostada de outra forma. o R nunca entendeu porque acabei, e desiludiu-me ainda mais profundamente ao me acusar de ter outra pessoa. acabei por perder toda a consideração que tinha por ele no dia em que me disse, "é de ti que eu gosto, só comecei a namorar com ela para te provocar, deixo-a quando quiseres".

não voltaram a gostar de mim assim, felizmente.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

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sou de amizades, capaz de gostar por gostar, apenas porque gosto, algumas das pessoas que gosto conheço-as bem, sei que me são diametralmente opostas, isso não impede que goste. se há amizades em que me partilho sem reservas, outras há que me refreio, talvez porque sei sermos tão diferentes há assuntos que vão ficando por abordar, verdades que vão ficando por dizer, porque quando se gosta e se conhece, aceita-se o outro e procura-se a harmonia, se não partilho tudo não gosto menos... mas às vezes, muitas, tenho a sensação que essas pessoas não me conhecem como eu sou, não vêem o que insisto em deixar transparecer, e pergunto-me se realmente gostam de mim ou da pessoa que inventaram para eu ser? de as conhecer tão bem sei que inventam personagens para serem felizes, não há mal nenhum em querer ser feliz, eu sou capaz de gostar de pessoas assim, mas há dias em que me pergunto porque inventaram gostar de mim?

segunda-feira, 8 de julho de 2013

teorias de noites quentes, com janelas abertas e luzes acesas

dou comigo a pensar, às vezes temos comportamentos que nos fazem parecer tão irracionais como uma borboleta a tentar chegar à luz de um candeeiro, ansiando entrar na campânula, um caminho sem retorno...